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Guerra, substantivo feminino

Por Maria Eduarda Rabello

Em “A Guerra não tem rosto de mulher” (Companhia das Letras, 2016), título que lhe rendeu o prêmio Nobel de Literatura, a jornalista ucraniana Svetlana Aleksiévitch narra a até então negligenciada história da participação feminina na Segunda Guerra Mundial. Mais de um milhão de mulheres soviéticas estiveram na linha de frente do maior conflito armado do século XX, atuando como franco-atiradoras, estrategistas, sapadoras, tanquistas, médicas e enfermeiras. Lutaram com a mesma fibra e bravura dos soldados do Exército Vermelho, mas experienciaram a amplitude e as miudezas da guerra sob a perspectiva única da sua natureza distinta.

É essa versão que a autora deseja apresentar ao leitor. Um retrato fiel das vivências e percepções femininas sobre os dias de batalha, a realidade do front, o contexto social em que estavam inseridas e as transformações pessoais oriundas de um cotidiano trágico. Apostando na força dos relatos, Aleksiévitch adota um estilo inusitado e constrói sua obra apenas transcrevendo os depoimentos colhidos, organizando-os de acordo com seu enfoque. O livro então se divide em 17 capítulos que abordam desde as motivações das jovens para se alistarem às tropas até a descoberta do amor em meio à guerra e a desesperança com o futuro pós-conflito.

Ao longo das 392 páginas, a escritora se preocupa mais em transmitir a essência da mensagem de suas personagens do que com a forma como suas memórias são recontadas. Mesmo recorrendo a elementos do jornalismo literário e utilizando toda sua capacidade descritiva para tornar o leitor parte dos seus encontros, Aleksiévitch não tem medo de reduzir uma entrevista de horas a uma fala, se o fundamental estiver contido nela. É uma escolha inteligente, que dá ritmo à leitura e permite à autora incluir ainda mais depoimentos em sua narrativa — reforçando, de modo nada óbvio, a infinidade de histórias por contar.

Por compreender a força e o potencial de impacto do seu trabalho, a jornalista inicia o livro relembrando a própria infância e o modo como a guerra sempre esteve presente no imaginário do seu círculo social e familiar. E explica porquê, já adulta, se propôs a escrever sobre um lado silenciado da luta: “tudo o que sabemos da guerra conhecemos por uma ‘voz masculina’ […]. Já as mulheres estão caladas. Ninguém, além de mim, fazia perguntas.”, conta. Segundo Aleksiévitch, não lhe interessavam os fatos, mas sim os sentimentos associados ao acontecimento, a realidade da alma. Por isso, encontrou as perguntas certas.

Conforme desvenda a obra, o leitor se depara com episódios em que mães se veem forçadas a abandonar seus bebês para preservar o esconderijo de aliados; jovens em idade escolar descobrem em meio à bombardeios que estão sangrando não devido a um ferimento, mas sim à menarca; e enfermeiras precisam entregar os corpos ainda quentes de seus pacientes a ratos esfomeados. Sempre corajosas, as protagonistas dessa história expõem seus feitos heróicos da mesma forma que expõem suas fragilidades, mostrando com orgulho as honrarias militares recebidas pelo serviço prestado e as peças íntimas costuradas com os trapos dos uniformes masculinos.

“A Guerra não tem rosto de mulher” é um título para ser lido aos poucos, permitindo-se momentos para absorver a totalidade das experiências daquelas mulheres, que viveram em uma conjuntura tão diferente da atual, mas se fazem próximas como uma irmã ou uma amiga quando compartilham seus anseios e sensações frente ao sinistro. É um lembrete de que a guerra só é romântica quando vista de longe, e só pode encontrar justificativa na frieza dos fatos. De perto, é imprevisível, invencível e indelével, como qualquer mulher.